quinta-feira, 12 de abril de 2012

Obra nossa

Pedra bruta é pedra rara
Pedra pura é coisa linda
Pele clara é coisa tua
Pele tua é pedra minha

Peça linda lapidada
Graça ausente trasparente
Sente nada, mente frente
À riqueza d'outro herdada

Pé no campo, mão na estaca
Remoldar é obra prima

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Se for pra ser, tente então me fazer sofrer

Teu sal tão mau me faz
Tentar voltar atrás
E vai, e cai, não sai
Ensaiando algum conto de paz

Mas essa lágrima não pesa
Disfarça, me laça e me pega
E o pingo vazio ganha cor
Vira rio, tira frio, ganha sabor

Então percebo que meu pranto
És na verdade um tanto quanto
a mais do que um belo encanto

Ao infinito vou de encontro
Todo mito desvendando
Bonito vai tudo metamorfoseando

A lágrima era dádiva
inválida para chorar

A mágica era deveras válida
Compacta para encantar

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Quanto mais longe, mais alto


Longe, lá de longe
Lá de mais de trás do monte
Vejo quão distante é onde
Foi morar meu coração

E o chão que hoje caminhei
amanhã também caminharia
Iria onde existiria
Aquela flor que tanto amei

A dor, hoje é distância
O amor é inconstância
A flor, ficou na infância
Criança, pobre sou.

Longe, lá de longe
Vejo outra flor
Outro amor
E outra dor de cima dessa ponte

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Sobre amor ou fidelidade

"Quanto tempo...
...Senti demais a sua falta. Voltei pra dizer que te amo."
Diria isso se pudesse te dizer alguma coisa neste momento. No entanto, limitações que estão acima de qualquer tentativa de explicação não permitem externar em palavras tudo aquilo que no meu peito aflora. Afinal, por quê, né? Por que calar a voz de quem tanto tem a dizer?
Enfim, não cabe a mim tentar entender essas coisas.
Quero te dizer também que eu não queria ir embora. Não aguentei de tanto ciúmes. Você estava cansada de saber que eu não aceitaria em hipótese alguma ser outro que não o principal de sua vida. Afinal, quantos anos... Mais da metade de minha vida.
Sei que você me ama, sempre amou e sempre me amará. E quero que você tenha a exata noção de que é exatamente isso que sinto por você, sempre senti e sempre sentirei. Mesmo distante.
Você não sabe o que passei, não sabe quando chorei, não sabe quanto sofri, não sabe o quanto caminhei pra chegar até aqui.
E hoje você não tem mais o culpado pela nossa separação. Mas tem a mim. E graças aos céus eu tenho você. E vou...
Vou atrás de você onde quer que você vá.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Abaixo do fundo

De manhã o sol brilha
Após... Graças (!), esfria
Sua filha lá fora desfila
Seu filho, da ponta espia

Da ponte, o mais novo chora
Del Punta o mais velho comemora
Em suma, os dois
Irão para a mesma merda depois

"Todo mundo tá feliz aqui na terra"
Terra amada, pátria amada
Luizas e Danieis tomam as mentes
Farturas e seus bens evaporam e nem sentem

Não falo só dos filhos
Falo também deste solo
Mãe deveras gentil
Pátria amada, Brasil.

Aqui o poço é fundo, liso e escorregadio.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O domingo da volta


Seus olhos brilhavam, seus braços caiam, seus dedos tremiam e suas pernas vagavam, somente vagavam. Só pudera ser o vento o responsável pelos empurrões necessários. Ou Deus... Deus? Fale isso a ele!!!
O corpo cansado já não daria mais passos não fosse a saudade, a vontade e uma verdade: faltava pouco, muito pouco.
Guarra nunca faltou. Guerra era passado. O terno era muito pesado. E o termo, pra ele chulo: "advogado". Run, dizia ele.
Ele é cardozo. Ou Júnior para os íntimos. Estes eram os responsáveis por tentar torná-lo uma cópia fajuta do Cardozão.
João Paulo Cardozo (pai) era muito mais. e talvez só ele soubesse disso.
Mas a vontade individual e particular perdeu a queda de braço para a coletiva e tradicional.
No entando, o guerreiro foi, e o guerreiro voltou. Sempr de cabeça erguida. Apesar do fraço pensamento: "Isso tudo vai acabar e quando eu chegar em casa eles estarão orgulhosos de mim".
Pobre, deixou-se levar.

Outro corpo, outro morto, outro Cardozo. Esse era José, caminhoniro.
O Júnior nesse caso esperava em casa pela volta de seu pai. Filho único de pai caminhoneiro que não via fazia três meses.
José pensava como João e proferia a frase em voz alta, batendo o peito cansado: "Isso tudo vai acabar e quando eu chegar em casa eles estarão orgulhosos de mim".

Ê João...

... ê José...

Dentro do caminhão...

... e do lado, a pé.

Quando chegar em casa, ê João.

Muito orglho de mim, ê José.

E o espinho da roda feriu João.

Aquilo tudo realmente estava acabando... "quando eu chegar em casa eles estarão orgulhosos de mim


Infelizmente não foi bem assim que aconteceu.

* Inspirado na música "Domingo no Parque" de Gilberto Gil.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A verdade sobre a beleza interior


- Espera, moço.
- O que foi?
- O senhor me deu R$5,50. Te paguei com uma nota de 5. Toma aqui.

Algo semelhante havia acontecido com Marcia na semana anterior. Mas a pressa não permitiu que a moça conferisse o troco adequadamente (até hoje ela não sabe de onde vieram aqueles 10 reais).
Mesmo que tivesse conferido, não adiantaria. Alguns milésimos de segundo após o desembarque da vendedora, a van já estava há cerca de 100 metros distância. Nem Usain Bolt no auge de seu desempenho conseguiria devolver aqueles 10 reais (sem querer comparar a pobre Marcia com o jamaicano 18 cm mais alto - longe disso).

Já que a comparação já passou por vossas cabeças, caros leitores, Marcia também tem seu lado atleta, joga vôlei pelo menos uma vez por semana com amigos. Sim, Marcia joga vôlei. talvez tenha passado despercebido para alguns, mas Marcia é um mulherão, 1,78 m de altura (18 cm menor que Bolt). Mulherão também no sentido vulgar da palavra. "Ela é gostosa" (como diria Jorge ben).
Para manter a gostosura, a jovem carioca come bem e não bebe cerveja nem refrigerante, além de jogar vôlei.

Certa vez seus amigos do vôlei zoaram o preço que ela estava pagando no suco de graviola.
"Se é três reais, vou pagar três reais. Se fosse dez, pagaria dez." - retrucou. E Marcia pagaria mesmo. E se o troco viesse a mais ela ainda devolveria - como aconteceu nas primeiras linhas deste texto.
A morena é honestíssima. Essa é uma das suas principais características. A segunda melhor, para ser mais preciso. Afinal, ela é gostosa, mas há controvérsias. Seu namorado diz que a principal é a personalidade, o que coloca a honestidade em terceiro plano e a gostosura em segundo. Hipócrita!, Márcia é muito honesta e muito gostosa. Quanto à personalidade, forte. Um pouco birrenta, do tipo que pagaria 10 reais em um suco de graviola pra não beber coca-cola.

Em uma mesa de bar, são poucas as vezes em que todos bebem cerveja e Marcia bebe graviola. Pois são poucas às vezes em que ela se encontra em uma mesa de bar. Ao contrário de Marcus – seu namorado, que vai pro bar pelo menos uma vez por semana (de 2ª a 5ª), geralmente nos dias de vôlei de Marcia.
Quando estão juntos, os dois transam. (lê-se: os dois transam e ponto).
A vida sexual é o ápice da relação do casal. Marcia não vai ao bar, Marcus não vai às quadras. Mas os dois vão à cama.

Há cerca de uma semana – no dia do troco errado na van – Marcus chegou bem tarde em casa. Pela segunda vez o safado trocou o caráter e o sexo de Marcia por algumas horas com com uma amiga de bar.
Assim como a origem daqueles 10 reais, Marcia nunca tomará conhecimento do acontecido naquelas noites e continuará nas quadras tomando seu suco de graviola.
 Marcus continuará de caso com a tal mulher, que talvez não seja honesta, nem tenha uma forte personalidade como principal característica. Talvez sequer seja gostosa. Mas frequenta o bar do Zé pelo menos uma vez por semana.