domingo, 22 de maio de 2011

Julgado e condenado

A cabeça pensa seu rosto
A caneta risca seu nome
O cometa pisca seu gosto
A sarjeta sangra desgosto

Sete velas, sete dias, sete meses, sete vezes.
Se nessas ocasiões pode-se falar em sorte, sorte foi o que lhe ocorreu. Pena reduzida, mas ainda sim escorre na testa o suor de aguentar vivo e honestamente todo aquele sofrimento adquirido.
O sabor de vingança já sumira de sua boca há mais de 200 dias.
Alguém fez, alguém tinha de pagar.
O escolhido a pagar, injustamente, foi ele.
Se já está pago, esquecer o passado e voltar a viver em paz.

Uma onda de horror atacara a cidade, este talvez tenha sido o motivo da ausência dela no último período de visitação. Já acontecera outras três vezes antes, nesses sete meses, nada demais, comparado à tudo já vivido nesse período.
A luz do dia, vista apenas em uma hora de seu dia, já lhe cansa os olhos agora que expostos já por duas. O caminho é o mesmo, mas as referências não mais.

O posto azul agora é vermelho, o poste torto, agora é poste novo, o Seu Manel agora é uma cruz, e sua querida lambreta agora é um carro. Ora, não poderia estar acontecendo, não a sua lambreta! Ao fundo, para alívio, sua lambreta, um pouco empoeirada como se esquecida.

O pequeno portão, que ele mesmo construiu, tornou-se um obstáculo para não aranhar o carro da visita que o aguarda em sua volta após tanto tempo.

A velha porta da sala, escancarada como sempre, indica ainda a hospitalidade da mais antiga e mais aconchegada casa do bairro. A nova porta do quarto indica uma vida nova no aconchego da antiga cama de felicidades e dois filhos da bagagem.

O silêncio momentâneo e o ruído de gozo marcam o recomeço.
Tudo, absolutamente tudo naquele quarto ainda permanecia no mesmo lugar, o guarda-roupas, com a porta do canto aberta e suas camisas separadas por cores e guardadas em degredê, o ventilador, girando na velocidade dois, a luz da esquerda apagada, a da direita e o abajour acesos, e a escrivaninha... Fora dos eixos, apenas a porta e o outro em cima de sua mesma cama, de mesmo forro.
E a escrivaninha... Na terceira gaveta, a chave, na segunda gaveta, a chave pra acabar com tudo aquilo e recomeçar. Dois disparos, cabeça e peito. Certeiros, como lhe tinham ensinado no sétimo mês da reclusão. Sua honestidade nos sete meses havia sido rompida apenas essa vez. O suficiente para fazê-lo voltar e por em teste novamente essa honestidade.

Diferente da outra vez em que esteve lá, agora aquele era seu lugar de merecimento. O choro da mulher amada, o sangue de alguém em sua cama, o olhar apavorado da filha mais velha e o não reconhecimento da mais nova. talvez aquele não fosse mesmo seu lugar. Mais um disparo e fim. Pra ele o mundo acabou.

Um comentário:

  1. Que bom te ver por aqui novamente... Estava sentindo falta disso, e sou capaz de apostar que não fui a única.

    Gostei muito, pra variar. Legal ver vc se metendo no caminho da narrativa, mt bem feita por sinal, com td que uma boa história tem que ter. Só toma cuidado que esse pode ser um caminho sem volta, eu mesma depois do primeiro conto não quis mais parar, rs.

    Parabéns pelo texto, e não deixe de escrever. Vc é bom nisso, e deixa alguns órfãos a sua espera quando se ausenta do blog.

    Se cuida ♥

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